JORNAL CORREIO DA BAHIA
Data:02/03/2008
09:10:00
Jornalista:Pablo Reis
Participação: Antonio Mateus de Carvalho Soares
Jovens negros são as vítimas preferenciais de grupos de extermínio
Negro, morador da periferia, desempregado, com escolaridade até o ensino fundamental, entre 15 e 29 anos, com facilidade para reproduzir gírias e geralmente alguma tatuagem no corpo: marcado para morrer. O perfil de vítimas de grupos de extermínio na Bahia coloca jovens negros de famílias de baixa renda, residentes em bairros populares, como alvos preferenciais de justiceiros, que incorporam o papel de polícia, juiz, júri e carrasco. Os levantamentos feitos por entidades de defesa dos direitos humanos e especialistas em segurança pública desenham a quase totalidade dos mortos em ações de esquadrões da morte com os pincéis da discriminação racial e social. O Fórum Comunitário de Combate à Violência, entidade que reúne ONGs, associações de moradores, representantes da polícia e pesquisadores acadêmicos, apresenta números alarmantes sobre a disparidade racial nas execuções. Os únicos dados disponíveis são de 2004, com base nos registros do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, mas o quadro deve permanecer inalterado. Dos 706 mortos em homicídios com idades entre 15 e 29 anos, 699 eram negros e sete brancos. As percentagens em relação ao número de cem mil de cada etnia é de 50,1 para os negros e 1,7 para os brancos. A aritmética do terror coloca 30 vezes mais chances de um jovem negro ser vítima de um grupo de extermínio do que um branco nas mesmas condições. Ser portador dessas características é, para o sociólogo e pesquisador da violência urbana Antônio Mateus de Carvalho Soares, como ostentar uma "marca de Caim", uma referência ao personagem bíblico sinalizado com o estigma de um grande malfeitor. Também estes jovens, na visão dos justiceiros, estão maculados pelo estereótipo de um delinqüente em potencial. "Os matadores fazem uma radiografia: se é preto, pobre, tem trejeitos, cabelo pintado, fala gíria, ou é ou vai ser marginal. A solução deles é eliminar", analisa Carvalho Soares, refletindo sobre a lógica dos grupos. Vítima - Ao preencher algumas características desse estereótipo, o adolescente deixa de ser um cidadão para se tornar uma espécie de alvo preferencial. Em 7 de fevereiro de 2003, Nailton Manoel da Conceição, um negro então com 17 anos, a três dias de completar um ano trabalhando em uma lanchonete da Pituba, foi assassinado com tiros de pistola e metralhadora por policiais que depois justificaram terem "confundido a vítima com um marginal". Ele estava deitado no quarto, na casa do bairro de Pero Vaz, quando foi surpreendido por agentes que invadiram atirando, numa ação descrita como a caça a um bandido perigoso da região. Dois policiais dos quatro participantes tiveram as exonerações publicadas no Diário Oficial do Estado em 3 de fevereiro de 2006, depois de um inquérito que mostrou a sucessão de erros e a forma precipitada como atiraram apenas pela presunção de culpa baseada no tipo físico. Eles podem ir a júri popular até o meio deste ano. "Quem mora em periferia sempre sofre mais. Se fosse um menino branco da Pituba ou da Graça, eles jamais fariam isso", lamenta o irmão mais velho de Nailton, Nilton Esperança Conceição, um pouco envergonhado pelas lágrimas por relembrar o episódio. "Consegui provar que meu irmão não tinha vínculo com a malandragem, mas isso não vai trazê-lo de volta". *** Alvos fáceis de matadores Na mira dos "matadores de aluguel", jamais estão os líderes de quadrilha, acusados de grandes crimes, chefes de bocas de fumo, assaltantes perigosos. As armas são apontadas quase sempre para corpos de primários, autores de furtos ou simplesmente candidatos a tal, de acordo com a escala de projeção de criminalidade elaborada pelos exterminadores. Terminam virando reforço de estatística nomes como Ricardo Matos dos Santos, 21 anos, Robson de Souza Pinho, 19 anos, Clodoaldo Souza, 22 anos, Alexandre Macedo Fraga, 17 anos. Os corpos alvejados durante ações noturnas passam a estampar as páginas de jornais em uma ilustração da barbárie. Os mortos sem sepultura, cadáveres exibidos na comunidade e nas publicações, funcionam pela lógica do exemplo. "Corpos expostos, simbolicamente sem sepultura, operam como uma advertência de comerciantes e exterminadores. São exemplos extremos do destino que poderão vir a ter outros jovens que fizerem carreira de reincidência no crime", explica o livro Sociabilidade e violência, coordenado pelo sociólogo Gey Espinheira, que faz um balanço da violência no subúrbio de Salvador. “Esses grupos elegem um alvo e partem para o que consideram assepsia social, ou seja, tirar de ação o que eles consideram como um possível delinqüente de circulação", explica a promotora pública Ana Rita Cerqueira Nascimento, que integra a equipe do Ministério Público responsável pela atuação contra a criminalidade organizada. "São pessoas que nem precisam ser remuneradas, às vezes agem por convicção de estar fazendo o bem". A promotora atuava na comarca de Santo Antônio de Jesus quando denunciou cinco policiais militares por integrar um grupo de extermínio na região. Dois deles foram condenados à prisão, mas terminaram soltos por habeas-corpus. O caso teve repercussão há cinco anos, principalmente por causa da visita da relatora da Organização das Nações Unidas para execuções sumárias, Asma Jahangir. Algumas entidades calculam em mais de 80 grupos de extermínio em ação no estado. No ano passado, o então delegado-chefe da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, João Laranjeira, avisou que tinham sido identificadas oito agremiações de matadores de aluguel. Nenhuma foi desarticulada. *** 'Antes eles do que um pai de família' Uma voz compatível com a de um homem entre 30 e 45 anos, respostas ora graves, ora sarcásticas, e a certeza de que ele está fazendo um bem para a sociedade. Durante pouco mais de dez minutos, um homem que assumiu a condição de integrante de um grupo de extermínio aceitou falar com a reportagem do Correio da Bahia, por telefone, depois de contatos com interlocutores em comum. Jack – como pediu para ser chamado – ligou para o celular do repórter de um número identificado como "restrito". Ele disse que trabalha como segurança de um mercadinho de bairro e que "já derrubou quatro vagabundos", em três anos. Os principais trechos da conversa estão a seguir: CORREIO DA BAHIA – O senhor faz parte de grupo de extermínio? Jack – Junto com alguns colegas, eu já "derrubei uns vagabundos" que faziam arruaça no bairro. CB – Que tipo de arruaça? Jack – Roubos, avião, até tentativa de estupro. CB – Qual o perfil dos integrantes do grupo? Jack – É misto. Tem policial e também gente comum. Um já foi polícia e agora trabalha como segurança. Outros dois só faziam acompanhar, não são mizeravão. CB – Vocês sempre agem em quatro? Jack – Às vezes, depende do lugar, da bocada, da baixada. Se for uma boca quente, tem que ir quatro ou cinco. Se for um lugar mais tranqüilo, até dois dão conta do trabalho. Porque já tem alguém na área que indica o local certo de encontrar o elemento. Aí só precisa colocar o brucutu e descer. CB – O senhor ganha dinheiro com isso? Jack – Não. Eu sou contra ganhar dinheiro com isso. Acho que fazer justiça com as próprias mãos não combina com ser remunerado por isso. Somos pessoas de bem, sem maldade e sem perversidade. A gente faz o que a polícia não pode fazer pela lei. Somos pessoas que querem deixar um mundo melhor para nossos filhos. CB – Quais foram suas vítimas? Jack – Uns vagabundos que queriam engrossar o pescoço na área. Um já tinha arrombado duas casas e outro "fez" uma padaria e uma farmácia. São pessoas que já têm passagem pela polícia e que já entram na delegacia dando risada, porque sabem que vão ser soltos. CB – O senhor acha correto fazer justiça com as próprias mãos? Jack – Se alguém me faz puxar o ferro, eu tenho que usar. Se eu der um mole, minha casa cai. Eu poderia matar alguém para me proteger ou para proteger outra pessoa. Pergunte lá na rua sobre os caras que caíram e todo mundo vai dizer que já foi tarde, tudo sacizeiro. Antes eles do que um pai de família, você não acha? CB – O que o senhor acha da violência? Jack – A violência é o pior problema de hoje. A violência e a corrupção na política. Fonte: Jornal Correio da Bahia
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2 comentários:
r sido aluno dessa pessoas tão fantastica, o texto é realmente esclarecedor, traz a tona fatos verdadeiros que estão ai ao nosso redor sempre fazendo um proxima vitima do sistema.
Parabéns Mestre
Honra ter conhecido essa pessoa maravilhosa que mt contribuiu para o meu crescimento social.
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